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Estórias de vidas reais: "Pelos caminhos do SOP"

 

Nascida a 19 de Março de 1977, a Matilde, aos 18 anos, lutava com o estranho fenómeno de não ter ainda sido premiada com aquilo de que todas as outras raparigas da sua idade se queixavam, o período. A estranheza deste facto levou Matilde à sua primeira consulta ginecológica, a uma séria de exames e ao diagnóstico de Síndrome de Ovário Policístico. "Solução", Matilde começou a tomar a pílula, mesmo não sendo menstruada, na expectativa de que esta a pudesse ajudar a regular as hormonas, o que aconteceu, passado cerca de meio ano Matilde "virava finalmente mulher".

Passaram-se quatro anos de muito stress, má alimentação e uma grande carga horária de trabalho derivada de empregos precários que acabaram por culminar numa pneumonia que a atirou para os caminhos tortuosos da depressão. Hoje sabe-se que a depressão é também um dos sintomas do SOP (Síndrome do Ovário Policístico). Depressão que lhe levou qualquer réstia de auto-estima que ainda sobrevivia, Matilde fechou-se em casa, no único espaço onde se conseguia ainda sentir segura.

A verdade é que nem sempre sabemos o que é o melhor para nós e às vezes é bom ter um braço firme ao nosso lado para nos desafiar e, se preciso for, nos forçar a fazer até aquilo que achamos que não queremos. A mãe de Matilde foi para ela esse braço firme, e muitas vezes nem é preciso mais do que um valente empurrão, um basta, um momento apenas para nos mostrarem que não estamos sós e que se do nosso lado não há coragem do lado desse braço não falta essa coragem, esse "estou contigo e nada mais importa", "esse confia em mim" e deixarmo-nos simplesmente ir. A ida da Matilde foi ao cabeleireiro, saiu de lá ruiva, restaurada e viva, outra vez.

 

Em 2007 Matilde caiu no mesmo erro, na construção de uma carreira, de um propósito profissional, foi ganhando experiência ao mesmo ritmo que foi perdendo saúde. Quando pensou em ter filhos, o seu médico de família disse-lhe que se quisesse ter saúde teria de tirar o aparelho reprodutor todo. Aquelas palavras foram um choque para ela, logo ela que sempre quis ter filhos. Ali se encontrava Matilde, entre o seu sonho de ser mãe e a sua saúde e qualidade de vida. Optou por deixar de tomar a pílula, optou pelo sonho. A SOP ia crescendo dentro dela como um monstro silencioso. As dores insuportáveis que a fazia passar pelas urgências logo pela manhã, no caminho para o emprego, obtinham como resposta: “isso são gases, tome um clister e vá para a casa de banho”. O único controle era feito pelas ecografias de rotina que lhe permitia observar a evolução dos cistos. Assim ia sobrevivendo na expectativa de que um dia conseguiria realizar o seu sonho: ser mãe, abdicar dele não lhe parecia sequer pensável.

 

Foi 2010 que trouxe a melhor notícia que Matilde podia ter mas foi também este ano o portador da pior notícia que uma mulher pode receber. Matilde tinha conseguido engravidar, uma felicidade que durou 5 semanas terminando num aborto espontâneo. Na altura aconselharam-na a trabalhar para esquecer. Como se abortar fosse algo que uma mulher conseguisse realmente esquecer. Trabalhar foi a pior coisa que fez, enquanto o corpo implorava repouso para se restabelecer, Matilde contrariava-o. Dois anos mais tarde o corpo caiu na exaustão e viu-se forçada a parar de vez, acabando por seguir os conselhos da sua mãe: “Sem saúde não há trabalho”. Nessa altura começou então a ser acompanhada por um excelente médico no Hospital Privado do Porto, porém o tratamento foi interrompido quando a vida se sobrepôs à sua saúde ao emigrar para Inglaterra.

Mas foi mesmo este novo país que a acolheu, que lhe renovou a esperança. 2013 e 2014 foram anos de muito stress e ansiedade mas também de preparação e fé. Por entre testes de ovulação, testes de gravidez negativos e enquanto via toda a gente à sua volta a engravidar, que Matilde resolveu tomar nas suas mãos a responsabilidade de melhorar a sua saúde em termos gerais. Começou por uma reeducando a nível alimentar, optando por alimentos mais saudáveis, deixando de comer alimentos que lhe faziam mal e desregulavam o seu organismo. Descobriu que os cistos dos ovários gostam da proteína da carne de vaca, o que a fez retirar a carne de vaca da sua dieta. Em pouco tempo aprendeu a comer de forma mais equilibrada e incluiu exercício físico no seu dia-a-dia.

 

 

Já no final de 2014, mais precisamente no dia 23 de Dezembro, foi submetida a uma laparoscopia para mininuir o cisto no ovário esquerdo que já atingia 5cm. 2015 não começou da melhor maneira, o pai de Matilde faleceu e ela, ainda em recuperação, teve de enfrentar uma viagem repentina a Portugal. O stress deste imprevisto provocou o crescimento do cisto para 8cm e, no Verão desse ano, voltou a tomar a pílula com o intuito de o reduzir novamente, três meses depois o cisto voltava aos 5cm e finalmente poderia iniciar os tratamentos para a Fertilização In Vitro (FIV). Ver o corpo transformar-se à medida que se vai injetando as hormonas necessárias para o tratamento resultar, é por si só uma experiência incrível. Nesta fase o apoio do seu companheiro da e para a vida, Rui, foi-lhe fundamental.

O tratamento foi bem sucedido e Matilde, cautelosamente, acreditava que estava grávida, num misto de medo e ansiedade fez o primeiro teste de gravidez, fez esse e muitos outros, era bom demais para ser verdade, finalmente o sonho começava a concretizar-se.

 

A 12 de Julho de 2016 nascia o fruto de um grande amor, da perseverança e da ciência. Após uma gravidez tranquila, tirando os diabetes gestacionais que às 40 semanas e 2 dias a levaram à indução, o Lú nasceu de parto normal, sem complicações. As contrações começaram às 20 horas e 3 horas depois o Lú já estava cá fora.

O pós-parto correu bem, com os sintomas do SOP a voltarem aos 9 meses do Lú, quando Matilde deixou de amamentar. O regresso à realidade foi inevitável. Médicos, exames, o cisto estava agora com 9cm. Em Fevereiro de 2018, Matilde dava entrada no hospital para nova laparoscopia, desta vez optou-se pela extração do cisto e colocação do SIU (aparelho intrauterino contracetivo que regula as hormonas e, neste caso, também os cistos). Após 6 longos meses a recuperar Matilde comemora agora a vida, a saúde, o segundo aniversário do seu filho e a realização do seu sonho maior. 

 

A doença permanece, silenciosa, e a luta continuará, sempre, até ao último suspiro, porque vale muito a pena lutar ♥

Matilde: "Eternamente grata à minha mãe e ao meu anjo Rui que nunca desistiram de mim, de nós. Grata também a toda a equipa do Hammersmith Hospital, que me ajudou a realizar o meu sonho, e à equipa do Hillingdon Hospital que acompanhou a minha gravidez."

 

 

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