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uma noite no hospital

Sábado fiz uma visita ao hospital que me levou a pernoitar, não estava minimamente preparada para isso, nem a nível logístico e muito menos a nível emocional. Desde que vivo em Inglaterra que tenho esta como a minha casa, foi aqui que as minhas filhas nasceram e é aqui que consigo trabalhar e ter uma vida o mais livre e despreocupada possível mas foi neste fim-de-semana que senti este como um país estranho. Aqui somos apenas nós: eu, ele e elas. Temos de ser autossuficientes, se eu falto fica apenas ele com a responsabilidade do mundo nas costas e se ele falta serei eu a carregar esse enorme fardo. Não existe plano B, C ou D, não dá para chamar a vizinha de longa data, a amiga de família, os avós, os tios, não dá para gritar por socorro. Sempre falámos desta realidade, sempre fez parte de nós, do nosso quotidiano, da nossa vida como emigrantes mas foi agora que entendemos verdadeiramente o significado de estarmos sós. 

 

Foram horas cheias de tempo que me fizeram parar para olhar para os dias de stress, ansiedade e desespero, que por vezes tenho, tudo fica tão pequeno quando estamos numa cama de hospital sem saber o que nos traz o futuro. A roupa suja no chão, o chão por limpar, o pó a acumular nas prateleiras, os papeis a amontoar à espera de serem organizados, a roupa por dobrar, os trabalhos da escola da L. por fazer, a C. que teima em não querer vestir-se sozinha, tudo fica sem importância, tudo o que me stressa, que me tira do sério, me faz gritar, desesperar, ralhar, tudo vira nada quando as lágrimas caem porque na verdade tudo isso é o que me faz falta, é o que me preenche, me faz respirar, porque tudo isso vem acompanhado de abraços, de amor, de beijos, de pedidos de desculpa, de "amo-te", de "não te quero largar nunca", de "és a melhor mãe do mundo"... É nesse momento que tudo à minha volta fica estranho, não pertenço aqui... não quero ser examinada pela enésima vez em menos de 24 horas, não quero que me meçam mais a tensão, a temperatura do corpo que sinto gelado, não quero mais médicos sexistas que não aguentam mulheres com opinião, não quero pessoas realmente doentes como companhia, quero o meu canto, o meu ninho, o maior abraço.

E quando chega a hora de voltar, percebo a forma sádica que a vida tem para nos chamar à razão, para nos colocar no lugar onde pertencemos, para nos voltar a encher de certezas, para nos abrir os olhos cegos pela rotina dos dias... e tudo volta a ser mais leve outra vez e todos os problemas ficam fáceis de resolver e todo o drama termina assim... com uma noite no hospital. ♥

 

[e com esta música no ouvido]

 

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